Uma leitura sistémica da memória inscrita no corpo
“The body keeps the score.”
Bessel van der Kolk
Há experiências que não chegam a tornar-se palavras. Não porque não existam, mas porque, no momento em que aconteceram, não houve espaço interno para as reconhecer, sentir ou dar significado. Ainda assim, elas não desaparecem, permanecendo muitas vezes em silêncio, até encontrarem outra forma de expressão e com frequência, essa expressão surge no corpo.
Ao longo do tempo, habituámo-nos a olhar para o corpo sobretudo numa lógica biológica, como um organismo que funciona melhor ou pior consoante o seu equilíbrio interno. Mas esta leitura revela-se limitada quando nos deparamos com sintomas persistentes sem explicação clara, ou com padrões físicos e emocionais que se repetem para além da lógica aparente.
Há dores que não cedem. Há tensões que se instalam. Há estados de ansiedade ou fadiga que parecem não ter causa direta.
E, perante isto, surge a pergunta habitual: “O que está errado?”
Talvez a questão possa ser outra.
Na abordagem sistémica, abre-se um espaço diferente de observação:
o que estará o corpo a tentar expressar que ainda não encontrou lugar na consciência?
Gabor Maté tem sido uma das vozes mais claras ao mostrar como o corpo responde àquilo que não conseguimos expressar emocionalmente. Quando não podemos dizer “não”, quando não conseguimos reconhecer necessidades profundas ou estabelecer limites, o corpo encontra formas de o fazer por nós. Aquilo que hoje sentimos como sintoma foi, muitas vezes, uma estratégia de adaptação, uma forma de sobreviver, de manter o vínculo, de garantir pertença.
O corpo não nos trai. O corpo protege-nos.
Bruce Lipton acrescenta uma dimensão complementar ao mostrar como o ambiente, não apenas externo, mas também emocional e relacional, influencia diretamente a forma como o organismo responde, adapta e se organiza. As experiências que vivemos moldam não só a nossa perceção, mas também a forma como o corpo funciona, muitas vezes fora do campo da consciência.
Neste sentido, o corpo não é apenas um reflexo do presente. É também um arquivo do passado.
E, como sugere Elisabeth Horowitz, esse passado pode não se limitar à história individual. O corpo pode ser compreendido como um “mapa genealógico vivo”, onde se inscrevem não apenas vivências pessoais, mas também ecos de experiências familiares que não encontraram resolução.
Na leitura sistémica, cada pessoa pertence a um sistema familiar mais amplo, e nesse sistema, acontecimentos significativos como perdas, traumas, exclusões, segredos, podem permanecer ativos quando não são reconhecidos ou integrados. E aquilo que não encontra lugar numa geração pode procurar expressão nas gerações seguintes, não de forma literal, mas através de padrões, repetições ou manifestações que parecem não fazer sentido à primeira vista.
Uma dor sem causa aparente, um sintoma persistente, uma reação emocional desproporcionada ao contexto atual, tudo isto pode ser olhado não apenas como fenómeno individual, mas como expressão de uma história mais ampla que procura reconhecimento.
Françoise Dolto já apontava para a forma como o corpo fala aquilo que não foi simbolizado. Para ela, o sintoma não é um erro, mas uma linguagem, uma tentativa do sujeito de dar forma a algo que não pôde ser dito. O corpo, nesse sentido, torna-se um mediador entre o vivido e o não representado.
Também Lise Bourbeau descreve como os bloqueios emocionais se refletem no corpo físico, sugerindo que aquilo que não é acolhido internamente tende a manifestar-se externamente, através de desconforto, doença ou repetição de padrões.
Tudas estas ideias e autores, parecem convergir para uma ideia essencial:
o corpo comunica.
Antes de existir narrativa, existe sensação. Antes de existir explicação, existe reação.
Como descreve Bessel van der Kolk, experiências emocionalmente intensas ficam registadas no corpo sob a forma de memória sensorial. É por isso que, tantas vezes, o corpo reage antes da mente compreender, a emoção surge antes da explicação e a sensação aparece antes da memória consciente.
O corpo fala numa linguagem mais antiga do que a palavra. Uma linguagem feita de respiração, tensão, impulso, ritmo e sensação. E, no entanto, vivemos numa cultura que nos ensina a silenciar rapidamente aquilo que incomoda. A eliminar o sintoma. A corrigir o desconforto.
Mas e se o sintoma não fosse um erro? E se fosse um convite?
Um convite a escutar aquilo que ficou por sentir. Um convite a reconhecer aquilo que não teve lugar. Um convite a olhar para além da superfície.
Na abordagem sistémica, muitas manifestações do corpo não surgem como falha, mas como tentativa de regulação. Como movimentos do sistema em direção ao equilíbrio.
A transformação, neste contexto, não começa pela eliminação do sintoma, mas pela escuta. Mas escutar o corpo implica desacelerar, criar espaço, estar presente e permitir sentir sem julgamento. Implica também aceitar que nem tudo é imediatamente compreensível. Que algumas respostas surgem apenas quando deixamos de procurar controlar e começamos a permitir contacto.
Quando o corpo é escutado com atenção, o sintoma pode começar a revelar o seu sentido. Não como uma interpretação fechada, mas como uma pista.
Uma dor pode apontar para excesso de responsabilidade. Uma dificuldade respiratória pode surgir em contextos onde não houve espaço para existir plenamente. Um cansaço persistente pode refletir uma história de esforço contínuo para corresponder.
Estas leituras não são universais. São caminhos de exploração, onde o essencial não está em encontrar rapidamente uma explicação, mas em construir uma relação diferente com aquilo que o corpo expressa.
Porque quando aquilo que foi vivido, ou herdado encontra reconhecimento, deixa de precisar de se repetir da mesma forma. O corpo pode, então, libertar-se da função de carregar sozinho aquilo que pertence a uma história mais ampla.
É neste movimento, surge algo essencial: um reposicionamento interno.
Reconhecer o que é teu, reconhecer o que pertence ao sistema e sempre que possível, devolver a cada lugar o que lhe corresponde.
Talvez possas levar contigo uma pergunta simples:
O que poderá o teu corpo estar a tentar mostrar-te hoje?
Não como uma busca imediata de respostas, mas como abertura à escuta, pois muitas vezes, é nesse espaço entre o sintoma e a consciência, que algo começa verdadeiramente a transformar-se.
Aqui, o corpo é visto como um lugar de encontro entre diferentes dimensões da experiência: biológica, emocional, relacional e sistémica.
Cada sintoma pode ser uma porta. Cada sensação, um ponto de contacto.
Cada repetição, um movimento em direção a algo que procura ser visto.
Quando o corpo deixa de ser um problema a resolver e passa a ser um aliado a escutar, a relação interna transforma-se, e, muitas vezes, é nesse momento que algo se reorganiza em profundidade.
Porque, no fundo, o corpo não fala por acaso. O corpo conta histórias.


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