“Aqueles que permanecem em silêncio diante da injustiça são cúmplices dela.”
Montesquieu
Há temas que nos atravessam. Que nos tiram o chão confortável das opiniões rápidas e nos colocam diante de algo mais denso, mais inquietante. O caso de Jeffrey Epstein foi assim para mim.
Não apenas pela gravidade dos crimes. Mas pelo campo que se revelou à volta deles. Pela teia de silêncios, influências, relações de poder. Pela sensação de que o que veio a público pode ser apenas uma parte. E pelo peso de ainda não sabermos tudo.
Senti angústia. Uma angústia difícil de explicar. Não é curiosidade mórbida. É a sensação de desordem. De algo profundamente fora do lugar.
Olho para este caso à luz das ordens do amor ou leis sistémicas, tal como formuladas por Bert Hellinger. E o que vejo não é apenas um homem. Vejo um sistema.
A primeira lei é a do pertencimento. Todos têm direito a pertencer e ninguém pode ser excluído sem que o sistema pague um preço. Mas pertença não é proteção do crime. Quando um sistema exclui as vítimas para proteger a imagem dos poderosos, cria-se uma fratura profunda. O que é silenciado não desaparece. Fica a atuar nas sombras. Volta como escândalo. Volta como desconfiança coletiva. Volta como sintoma social.
Depois há a hierarquia. Num sistema saudável, o mais forte protege o mais vulnerável. O adulto protege a criança. O poder serve a vida. Quando esta ordem se inverte, quando o poder se serve do frágil, não estamos apenas perante falhas individuais. Estamos perante uma quebra estrutural. Algo essencial foi violado.
E há ainda a lei do equilíbrio. Onde houve abuso, houve um desequilíbrio brutal entre dar e receber. Quando não há reconhecimento claro, quando a responsabilidade não é assumida até ao fim, o sistema não encontra paz. Fica suspenso. Fica tenso. Fica incompleto.
Mas talvez o que mais me inquieta seja a reflexão sobre a boa e a má consciência.
Hellinger dizia que a consciência, antes de ser moral, é sistémica. Sentimos boa consciência quando estamos alinhados com o nosso grupo. Sentimos má consciência quando corremos o risco de perder pertença.
Isto é profundamente desconcertante.
Porque significa que alguém pode saber, suspeitar, calar e ainda assim sentir-se “em paz”, desde que permaneça dentro do círculo. A tranquilidade pode vir não da verdade, mas da lealdade ao grupo.
E significa também que quem denuncia, quem rompe o silêncio, quem expõe a desordem, pode sentir culpa. Pode sentir medo. Pode sentir que está a trair.
Este pensamento não me deixa confortável. Pelo contrário, perturba-me, porque me obriga a olhar para mim.
Onde fico eu quando algo me incomoda profundamente?
Quando pressinto injustiça, mas falar pode custar relações, pertença, aceitação?
Quando não sei tudo, mas sei o suficiente para sentir que algo está errado?
Se fico calada, estou neutra? Ou estou a alinhar-me com a boa consciência do grupo que prefere não ver?
A neutralidade, à luz das leis sistémicas, é uma ilusão. O silêncio também é um movimento. Também cria efeitos. Também protege lugares.
E talvez o que mais angustia neste caso não seja apenas o que aconteceu, mas a possibilidade de que muitos tenham sabido e escolhido a segurança da pertença em vez do desconforto da verdade.
Isso confronta-me.
Porque, em maior ou menor escala, todos somos chamados a escolher entre a tranquilidade da boa consciência sistémica e o incómodo da má consciência que nos afasta do grupo, mas nos aproxima da vida.
Não escrevo isto com superioridade. Escrevo com inquietação. Com a consciência de que também eu, em diferentes momentos da vida, fui confrontada com o dilema entre falar ou calar.
Escrever este artigo é o que posso fazer no “meu quintal”.
Não tenho acesso aos bastidores do poder. Não controlo sistemas globais. Não sei toda a verdade.
Mas posso escolher não me anestesiar. Posso escolher não transformar o silêncio em conforto. Posso escolher não usar a pertença como desculpa.
Se ficar calada, participo. Se me posiciono, arrisco.
Talvez restaurar alguma ordem no mundo não comece nos grandes palcos, mas na coragem íntima de cada um suportar a má consciência que vem com a verdade.
Este texto é o meu movimento. É a minha forma de não ser cúmplice.
E a pergunta que deixo, a mim e a ti, é simples e dura: No teu “quintal”, o que estás disposto a fazer para não ficar calado?



No responses yet